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A Ascensão do Senhor na Liturgia da Igreja

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Dimensão Cristológica, Eclesiológica e Escatológica da Solenidade no Ano A

Resumo

A Solenidade da Ascensão do Senhor constitui um dos momentos centrais do ciclo pascal e possui profunda relevância para a teologia litúrgica da Igreja. O presente artigo busca analisar o significado litúrgico e teológico da Ascensão do Senhor no Ano A, a partir dos textos bíblicos de Atos dos Apóstolos e Mateus, em diálogo com a tradição patrística, o Magistério da Igreja e os documentos litúrgicos pós-conciliares. A reflexão evidencia que a Ascensão não representa ausência de Cristo, mas sua glorificação e nova forma de presença na Igreja. O estudo também destaca a dimensão missionária, pneumatológica e escatológica da celebração, mostrando como a liturgia da Ascensão conduz a comunidade cristã à esperança do Reino e ao compromisso evangelizador.


Introdução

A liturgia da Ascensão do Senhor ocupa lugar singular no Ano Litúrgico. Celebrada quarenta dias após a Páscoa — ou transferida para o domingo seguinte em algumas conferências episcopais — ela conclui o ciclo das aparições do Ressuscitado e introduz a Igreja na expectativa de Pentecostes.

Os textos proclamados na Solenidade da Ascensão do Senhor, Ano A, especialmente Atos 1,1-11 e Mateus 28,16-20, apresentam dois elementos centrais da teologia litúrgica cristã: a glorificação de Cristo e o envio missionário da Igreja. A Ascensão não pode ser compreendida apenas como um acontecimento histórico localizado no término das aparições pascais, mas como mistério celebrado sacramentalmente pela Igreja na liturgia.

O objetivo deste artigo é apresentar uma reflexão teológica e litúrgica sobre a Ascensão do Senhor, destacando suas dimensões cristológica, eclesiológica e escatológica. Para isso, serão utilizados como fundamento a Sagrada Escritura, o Catecismo da Igreja Católica, os documentos do Concílio Vaticano II, especialmente a Sacrosanctum Concilium, além de referências patrísticas e litúrgicas relevantes.


A Ascensão do Senhor como Mistério Cristológico

A Ascensão de Cristo constitui a plenitude da glorificação do Ressuscitado. O evento narrado em Atos 1,9 — “foi elevado à vista deles” — não descreve um deslocamento físico no espaço, mas exprime teologicamente a entrada definitiva da humanidade de Cristo na glória do Pai.

O Catecismo da Igreja Católica afirma:

“A Ascensão de Cristo marca a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus.” (CIC 665)

A teologia litúrgica interpreta a Ascensão como parte inseparável do Mistério Pascal. Morte, ressurreição, ascensão e envio do Espírito constituem uma única realidade salvífica. Nesse sentido, a liturgia celebra não apenas uma memória histórica, mas a atualização sacramental da glorificação de Cristo.

A Constituição Sacrosanctum Concilium ensina:

“Na liturgia terrestre participamos, antegozando, da liturgia celeste.” (SC, 8)

A Ascensão manifesta precisamente essa abertura entre liturgia terrestre e liturgia celeste. Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, entra no santuário celeste e intercede continuamente pela humanidade (cf. Hb 9,24).

Os Padres da Igreja interpretaram esse mistério em chave profundamente antropológica e salvífica. São Leão Magno escreve:

“A Ascensão de Cristo é nossa elevação.”

Tal afirmação revela que a humanidade glorificada de Cristo antecipa o destino escatológico da Igreja. Em Cristo, a natureza humana é elevada à comunhão plena com Deus.

Do ponto de vista litúrgico, a Ascensão reafirma a centralidade da dimensão pascal da liturgia cristã. O Ressuscitado não abandona a Igreja, mas inaugura uma nova modalidade de presença sacramental e espiritual.


A Dimensão Eclesiológica e Missionária da Ascensão

O Evangelho de Mateus apresenta a Ascensão em estreita relação com o mandato missionário:

“Ide e fazei discípulos meus todos os povos.” (Mt 28,19)

A liturgia da Ascensão possui profundo caráter eclesiológico. Cristo glorificado envia a Igreja ao mundo. A Ascensão não encerra a missão de Jesus; ao contrário, inaugura o tempo da missão e da ação do Espírito Santo.

O Concílio Vaticano II afirma:

“A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária.” (Ad Gentes, 2)

A liturgia da Ascensão revela a identidade missionária da Igreja. O Ressuscitado confia aos discípulos a continuidade de sua obra evangelizadora. A comunidade litúrgica torna-se comunidade enviada.

A Instrução Geral do Missal Romano recorda que a liturgia conduz os fiéis à vida cristã concreta:

“A celebração eucarística é centro de toda a vida cristã.” (IGMR, 16)

Nesse contexto, a Ascensão possui caráter performativo: a assembleia não apenas recorda o envio missionário, mas é sacramentalmente enviada ao mundo.

Além disso, a narrativa de Atos apresenta forte dimensão pneumatológica:

“Recebereis o poder do Espírito Santo.” (At 1,8)

A Ascensão orienta a Igreja para Pentecostes. A ausência visível de Cristo prepara a presença interior do Espírito. Liturgicamente, a Igreja entra em atitude de expectativa, oração e esperança.

Joseph Ratzinger observa:

“A Ascensão não é afastamento de Cristo do mundo, mas nova forma de proximidade.”

Essa compreensão corrige interpretações simplistas do mistério e fundamenta a espiritualidade litúrgica da Igreja pós-pascal.


A Ascensão e a Liturgia Celeste

Um dos aspectos mais profundos da teologia da Ascensão encontra-se na relação entre liturgia terrestre e liturgia celeste. A Carta aos Hebreus oferece importante chave interpretativa ao apresentar Cristo como sacerdote eterno que entra no verdadeiro santuário.

O Catecismo afirma:

“Cristo entrou no Céu para comparecer agora na presença de Deus em nosso favor.” (CIC 662)

A liturgia cristã participa dessa realidade celeste. O prefácio da Ascensão expressa essa teologia ao proclamar que Cristo “subiu aos céus para nos tornar participantes de sua divindade”.

A Ascensão possui, portanto, dimensão escatológica. A liturgia não é mera celebração memorial, mas antecipação do Reino definitivo.

O teólogo Louis Bouyer observa que a liturgia cristã:

“É a inserção sacramental da Igreja na liturgia eterna de Cristo.”

A solenidade da Ascensão evidencia essa inserção. O Cristo glorificado continua exercendo seu sacerdócio eterno, e a Igreja participa desse mistério através da celebração litúrgica.

A Sacrosanctum Concilium afirma:

“Na liturgia, especialmente no santo sacrifício da Eucaristia, exerce-se a obra da nossa redenção.” (SC, 2)

A Ascensão recorda que toda liturgia é orientada para o Céu. O culto cristão possui direção escatológica: conduz a Igreja ao encontro definitivo com Deus.


Aspectos Pastorais e Litúrgicos da Solenidade da Ascensão

A celebração litúrgica da Ascensão exige equilíbrio entre solenidade, espiritualidade pascal e consciência missionária. A pastoral litúrgica deve evitar interpretações reducionistas que apresentem a Ascensão apenas como “despedida” de Jesus.

O tempo litúrgico entre Ascensão e Pentecostes possui caráter pedagógico e espiritual. A Igreja é convidada à oração perseverante, inspirada na experiência do Cenáculo.

Do ponto de vista ritual, alguns elementos merecem destaque:

  • o uso do círio pascal até Pentecostes;

  • o caráter festivo da celebração;

  • os cantos com temática missionária e gloriosa;

  • a valorização do mandato final do Evangelho.

A homilia da Ascensão deve integrar:

  • cristologia;

  • eclesiologia;

  • missão;

  • esperança escatológica.

O Papa São Paulo VI recordava:

“A liturgia é a primeira fonte da espiritualidade cristã.”

Assim, a celebração da Ascensão deve formar espiritualmente os fiéis para viverem a tensão entre contemplação e missão.

Além disso, a solenidade possui forte dimensão antropológica. A humanidade glorificada de Cristo revela o destino último da pessoa humana. Em uma cultura marcada pela desesperança e pelo materialismo, a Ascensão proclama a dignidade transcendente do ser humano.


Conclusão

A Solenidade da Ascensão do Senhor ocupa posição central na economia litúrgica do Mistério Pascal. Ela manifesta a glorificação definitiva de Cristo, a esperança escatológica da Igreja e o envio missionário dos discípulos.

A teologia litúrgica compreende a Ascensão não como ausência de Cristo, mas como transformação de sua presença. O Ressuscitado continua agindo na Igreja mediante o Espírito Santo, especialmente na liturgia.

Do ponto de vista pastoral, a celebração da Ascensão deve conduzir os fiéis a uma espiritualidade missionária, eclesial e esperançosa. A Igreja celebra o Cristo glorificado não para permanecer “olhando para o céu”, mas para testemunhar o Evangelho no mundo.

A Ascensão revela que a liturgia cristã está orientada para a plenitude do Reino. Cada celebração torna-se antecipação da comunhão definitiva com Deus, para a qual toda a humanidade é chamada em Cristo.


Referências Bibliográficas

Documentos da Igreja

  • CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Constituição sobre a Sagrada Liturgia. Vaticano, 1963.

  • CONCÍLIO VATICANO II. Ad Gentes. Decreto sobre a atividade missionária da Igreja. Vaticano, 1965.

  • CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.

  • IGREJA CATÓLICA. Instrução Geral do Missal Romano. Brasília: CNBB, 2008.

  • PAULO VI. Mysterium Fidei. Vaticano, 1965.

  • JOÃO PAULO II. Ecclesia de Eucharistia. Vaticano, 2003.


Sagrada Escritura

  • BÍBLIA SAGRADA. Tradução da CNBB. Brasília: Edições CNBB, 2018.


Patrística e Teologia

  • SANTO AGOSTINHO. Sermões sobre o Tempo Pascal. Petrópolis: Vozes.

  • SÃO LEÃO MAGNO. Sermões. São Paulo: Paulus.

  • RATZINGER, Joseph (Bento XVI). Introdução ao Espírito da Liturgia. São Paulo: Loyola.

  • BOUYER, Louis. Liturgia e Arquitetura. São Paulo: Paulinas.

  • SCHMEMANN, Alexander. Introdução à Teologia Litúrgica. São Paulo: Paulinas.