Baixar em PDF

A Participação das Crianças na Liturgia

 Resumo

A participação das crianças na liturgia é um tema de grande importância pastoral e teológica, refletindo a necessidade de integrá-las plenamente na vida da comunidade cristã. Este texto aborda a importância dessa participação à luz da tradição da Igreja, do magistério e da renovação litúrgica do Concílio Vaticano II. Discutimos os desafios e as práticas que favorecem uma experiência significativa para as crianças na liturgia, respeitando sua capacidade de compreensão e envolvimento ativo.


Introdução

A liturgia, como "a cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força" (SC, 10), é o lugar onde todos os membros do Corpo de Cristo são chamados a participar ativamente. No entanto, a questão da participação das crianças levanta desafios práticos e pastorais. Como garantir que as crianças, com suas limitações de compreensão e desenvolvimento, possam participar de maneira ativa e frutífera nas celebrações litúrgicas? Este estudo examina a relevância da participação das crianças, as bases teológicas dessa integração e as formas de envolvê-las adequadamente.


Capítulo 1: A Dimensão Teológica da Participação Litúrgica

A participação ativa na liturgia é um princípio central da reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II. A constituição Sacrosanctum Concilium (SC) sublinha que todos os fiéis, independentemente da idade, são chamados a participar da liturgia "de maneira consciente, ativa e frutuosa" (SC, 14). As crianças, como membros plenos do Povo de Deus pelo batismo, também têm o direito de participar da vida litúrgica da Igreja.

O batismo confere às crianças uma dignidade eclesial que as torna parte do Corpo de Cristo e, portanto, participantes na oferta sacramental da Igreja. Assim, sua presença nas celebrações não é meramente passiva ou ornamental, mas deve ser uma verdadeira inserção na vida de adoração comunitária, ainda que com adaptações pastorais que respeitem sua capacidade cognitiva e afetiva.


Capítulo 2: As Crianças e a Liturgia na Tradição da Igreja

Historicamente, a Igreja sempre reconheceu a importância das crianças na comunidade cristã. A própria prática da iniciação cristã das crianças por meio do batismo demonstra o valor que a Igreja atribui à sua presença na comunidade de fé. No entanto, a participação das crianças na liturgia sofreu variações ao longo dos séculos, sendo muitas vezes relegada a um segundo plano ou vista como uma questão secundária.

Foi com o Concílio Vaticano II que uma renovada atenção foi dada à liturgia como experiência comunitária e participativa, incluindo as crianças. A Igreja passou a valorizar não apenas a presença física das crianças, mas também a busca de formas adequadas de inseri-las nas celebrações, de modo que pudessem viver a fé em comunhão com toda a assembleia.

A tradição bíblica também oferece bases para essa participação. Jesus, em várias ocasiões, demonstrou acolhimento às crianças, afirmando que "delas é o Reino dos Céus" (Mt 19,14). Este gesto de Jesus reforça a ideia de que a liturgia, como experiência do Reino de Deus, deve ser acessível a todos, inclusive aos pequenos.


Capítulo 3: Práticas e Desafios na Participação das Crianças na Liturgia

A aplicação prática da participação das crianças na liturgia enfrenta desafios. Por um lado, a liturgia é, por natureza, uma ação comunitária que segue um rito e uma linguagem que muitas vezes podem ser complexos para as crianças. Por outro lado, as crianças possuem uma sensibilidade particular, aberta ao mistério e ao transcendente, o que as torna capazes de vivenciar a liturgia de maneira profunda, ainda que não plenamente racional.

Algumas práticas recomendadas para favorecer a participação das crianças incluem:

  1. Liturgia da Palavra Adaptada: Em muitas comunidades, é comum a celebração de uma Liturgia da Palavra específica para crianças, com linguagem mais acessível e explicações apropriadas à sua idade. Isso permite que elas compreendam melhor as leituras e o Evangelho.

  2. Participação Ativa: Crianças podem ser envolvidas como leitores, coroinhas, ou mesmo ajudando em gestos litúrgicos simples, como as procissões. Esse envolvimento concreto ajuda a despertar nelas o sentido de pertença e participação.

  3. Ambiente Acolhedor: É importante criar um ambiente onde as crianças se sintam bem-vindas. Isso pode incluir o uso de símbolos visuais, música e gestos que captem sua atenção e ajudem a envolver seus sentidos na celebração.

  4. Catequese Litúrgica: A catequese litúrgica é fundamental para preparar as crianças para participar da liturgia. Através de explicações simples e dinâmicas, as crianças podem entender o significado dos ritos e símbolos litúrgicos, tornando sua participação mais consciente.


Capítulo 4: Os Frutos da Participação das Crianças na Liturgia

Quando bem orientada, a participação das crianças na liturgia não só beneficia o seu crescimento espiritual, mas também enriquece a própria comunidade de fé. A presença das crianças lembra aos adultos da simplicidade e da confiança que devem caracterizar a relação com Deus. Além disso, sua participação ativa pode ser uma escola de fé, onde elas aprendem desde cedo o valor da comunidade, da oração e da celebração dos mistérios da fé.

A formação litúrgica desde a infância cria raízes profundas que irão sustentar a vida cristã ao longo dos anos. As crianças que experimentam uma liturgia viva e significativa tendem a desenvolver um amor profundo pela Igreja e por sua vida sacramental, o que é crucial para seu amadurecimento na fé.


Conclusão

A participação das crianças na liturgia é um elemento indispensável para sua formação cristã e para o desenvolvimento de uma Igreja verdadeiramente inclusiva e comunitária. Embora os desafios sejam grandes, a Igreja tem a responsabilidade de promover essa participação de maneira consciente e adaptada. A liturgia é o lugar privilegiado onde a fé é vivida e celebrada, e as crianças, como membros do Corpo de Cristo, devem ser acolhidas e inseridas de maneira significativa nesse mistério.


Referências Bibliográficas

  • CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia). Roma, 1963.
  • CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Diretório para Missas com Crianças. 1973.
  • RATZINGER, Joseph. O Espírito da Liturgia. São Paulo: Loyola, 2005.
  • GUIMARÃES, José Carlos. A Liturgia com Crianças: Caminhos para uma experiência orante. São Paulo: Paulus, 2018.
  • MARTIMORT, Aimé Georges (org.). A Igreja em Oração: Introdução à Liturgia. 3ª ed. São Paulo: Loyola, 1991.

A Liturgia e o Sagrado: Senhor eu não sou dígno que entreis em minha casa

Introdução

A Liturgia Católica está profundamente enraizada nas palavras e nos ensinamentos de Jesus Cristo, que são expressos nos Evangelhos e nas tradições da Igreja. Uma das frases mais comoventes da Missa, repetida por milhões de fiéis em todo o mundo, é: "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo." Esta expressão de humildade é proferida antes da Comunhão e tem sua origem no Evangelho de Mateus, quando o centurião, um oficial romano, reconhece sua indignidade diante de Jesus.

Essa frase não apenas expressa um profundo respeito pela divindade de Cristo, mas também reflete a consciência de nossa própria fraqueza e a necessidade de receber a misericórdia de Deus. Na Liturgia, ela serve como uma preparação espiritual para o grande mistério da Eucaristia, onde se acredita que Cristo entra na alma do fiel de maneira real e sacramental.

Neste artigo, exploraremos a origem dessa frase, sua aplicação litúrgica, seu significado teológico e a importância da humildade no ato de fé. Essa análise visa destacar como uma simples frase evangélica carrega um profundo significado espiritual, impactando a relação do fiel com Deus e a sua participação na Liturgia.


Ponto 1: Origem Bíblica da Frase

A frase "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada" encontra sua origem no Evangelho de Mateus (8:5-13), na história do centurião romano. Este oficial busca a ajuda de Jesus para curar seu servo doente. Embora o centurião tivesse autoridade e poder, ele demonstrou uma profunda humildade ao reconhecer a superioridade espiritual de Jesus. Quando Jesus se ofereceu para ir à casa do centurião, este respondeu com a famosa frase: "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma palavra e o meu servo será curado."

Essa passagem reflete a humildade do centurião e sua fé inabalável no poder de Jesus. O centurião sabia que não precisava da presença física de Jesus para que o milagre ocorresse, pois acreditava que uma simples palavra de Cristo seria suficiente para a cura. Sua fé foi tão impressionante que Jesus o elogiou, dizendo: "Em verdade vos digo, que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé." Esse momento revela o poder da fé e da humildade no relacionamento entre Deus e o homem.

A frase, portanto, é carregada de um significado profundo, tanto no contexto bíblico quanto no uso litúrgico. Ela nos lembra que, como o centurião, devemos nos aproximar de Deus com humildade e confiança, reconhecendo nossas limitações e acreditando plenamente no poder transformador de Sua palavra.


Ponto 2: A Aplicação Litúrgica

Na Missa Católica, a frase do centurião é repetida por todos os fiéis antes de receberem a Sagrada Comunhão. Na Liturgia, ela foi ligeiramente adaptada para refletir a condição espiritual do fiel, que se prepara para receber o Corpo e o Sangue de Cristo. A versão litúrgica usada na Missa é: "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo." Este momento é uma preparação para um dos mais altos sacramentos da Igreja, a Eucaristia.

O uso desta frase na Liturgia tem um propósito específico: ajudar os fiéis a refletirem sobre sua própria indignidade diante da grandeza de Deus. A Comunhão é um momento íntimo em que o cristão recebe a presença real de Cristo em seu coração. Diante de tal grandeza, é natural que o fiel sinta a sua pequenez e se veja indigno de tão grande bênção. A frase evoca essa realidade, permitindo que cada um reconheça sua necessidade da graça divina.

Ao recitar essas palavras, os fiéis se preparam espiritualmente para o momento de união com Cristo. Não é apenas uma repetição mecânica, mas uma declaração sincera de fé e humildade. A frase lembra a todos que, embora sejamos pecadores, Deus, em sua infinita misericórdia, nos concede o dom da Eucaristia para nossa salvação.


Ponto 3: O Significado Teológico

Do ponto de vista teológico, a frase "Senhor, eu não sou digno" expressa uma verdade fundamental da fé cristã: a relação entre a santidade de Deus e a fragilidade humana. No cristianismo, acredita-se que o ser humano, por sua natureza pecaminosa, está distante da perfeição divina. No entanto, Deus, em sua misericórdia, oferece a oportunidade de redenção e salvação através de Jesus Cristo.

Ao dizer "eu não sou digno", o fiel reconhece sua condição de pecador e sua total dependência da graça de Deus. Essa é uma postura teológica de humildade, que reconhece que, por si só, o ser humano não pode alcançar a salvação. No entanto, essa indignidade não é motivo de desespero, mas sim de esperança, pois, ao confiar em Deus e em Sua palavra, o fiel acredita na possibilidade de ser salvo e curado espiritualmente.

Além disso, a frase sublinha a importância da fé na vida cristã. Assim como o centurião acreditou no poder da palavra de Jesus, os fiéis são chamados a confiar que Deus pode transformar suas vidas, independentemente de suas imperfeições. Isso reflete a essência do evangelho: a salvação é um dom gratuito de Deus, que não depende dos méritos humanos, mas da graça divina.


Ponto 4: A Importância da Humildade no Ato de Fé

A humildade desempenha um papel central no cristianismo, e a frase "Senhor, eu não sou digno" encapsula essa virtude de maneira poderosa. No ato de fé, a humildade é a atitude de reconhecer nossa condição limitada diante da grandeza de Deus. Ao repetir essa frase na Missa, o fiel não apenas reconhece sua indignidade, mas também coloca toda a sua confiança na misericórdia divina, sabendo que a salvação vem de Deus e não de seus próprios esforços.

Na teologia católica, a humildade é considerada uma virtude que abre o coração humano para a graça. Um coração humilde é capaz de reconhecer sua necessidade de Deus e, assim, permitir que Deus entre em sua vida. Essa atitude é essencial para a recepção da Eucaristia, pois o sacramento exige que o fiel esteja preparado espiritualmente, não pela perfeição moral, mas pela abertura à ação divina.

Além disso, a humildade também é um reflexo da atitude de Cristo, que, sendo Deus, "esvaziou-se a si mesmo" (Filipenses 2:7) ao se tornar homem e aceitar a morte na cruz. Ao imitar essa humildade, o cristão se aproxima mais do coração de Jesus, que veio não para ser servido, mas para servir. Dessa forma, a repetição da frase "Senhor, eu não sou digno" é não apenas um reconhecimento da própria condição, mas também uma forma de se unir à humildade de Cristo.


Conclusão

A frase "Senhor, eu não sou digno que entreis em minha morada" é uma expressão profunda de humildade, fé e confiança na misericórdia divina. Sua origem no Evangelho de Mateus, na história do centurião, fornece um poderoso exemplo de fé e de reconhecimento da grandeza de Deus diante da pequenez humana. Incorporada à Liturgia da Igreja, ela prepara os fiéis para o momento sublime da Comunhão, quando Cristo é recebido sacramentalmente.

Do ponto de vista teológico, a frase nos lembra da necessidade de humildade na vida espiritual. Reconhecer nossa indignidade não significa afastar-se de Deus, mas sim aproximar-se Dele com um coração contrito e aberto à Sua graça. A confiança no poder da palavra de Deus, assim como expressada pelo centurião, é um ato de fé que transforma a vida do cristão.

Em última análise, a frase evoca o mistério da salvação: embora sejamos indignos, Deus, em sua infinita misericórdia, nos convida a participar de sua vida divina. É um lembrete constante de que, na Liturgia e na vida cotidiana, a humildade e a fé são os caminhos que nos levam mais perto de Deus.

Liturgia e a Festa da Exaltação da Santa Cruz: Uma Reflexão Teológica e Litúrgica

 Introdução



A Liturgia é o coração da vida da Igreja Católica, expressando e celebrando os mistérios da fé. Dentro do calendário litúrgico, há diversas festas e solenidades que realçam aspectos cruciais da teologia cristã. Uma dessas celebrações é a Festa da Exaltação da Santa Cruz, comemorada anualmente em 14 de setembro. Esta festa, apesar de sua origem histórica estar ligada a eventos concretos como a descoberta da verdadeira cruz por Santa Helena, mãe do imperador Constantino, e à dedicação da Basílica do Santo Sepulcro, assume uma profundidade teológica e espiritual que transcende esses acontecimentos.

A Festa da Exaltação da Santa Cruz celebra o significado redentor da cruz de Cristo. A cruz, símbolo da morte e do sofrimento, foi transformada pelo sacrifício de Jesus em sinal de vitória e redenção. A cruz exalta o paradoxo da fé cristã: é ao mesmo tempo símbolo de sofrimento e de glória, de morte e de vida. Através desta reflexão, exploraremos a importância da liturgia na vida da Igreja, com enfoque especial na Festa da Exaltação da Santa Cruz, analisando suas implicações teológicas, espirituais e pastorais.

1. A Importância da Liturgia na Vida da Igreja

A liturgia é a expressão oficial da fé da Igreja, sendo "a ação pública e comunitária por excelência, onde o mistério de Cristo é atualizado e celebrado" (Congregação para o Culto Divino, 1975). Através dela, a Igreja não apenas recorda os eventos salvíficos, mas os torna presentes no "hoje" da comunidade eclesial. A liturgia também é entendida como a “fonte e ápice” da vida cristã (Sacrosanctum Concilium, 10), onde os fiéis encontram a graça santificadora e a expressão máxima da adoração a Deus.

A centralidade da liturgia reside no fato de que nela se realiza a ação salvífica de Cristo de forma sacramental. Cada festa, solenidade e memória no calendário litúrgico reflete uma faceta da história da salvação, permitindo que os fiéis entrem em contato profundo com os mistérios de Cristo. Assim, ao celebrar a Eucaristia e outras ações litúrgicas, a Igreja atualiza e perpetua o evento pascal, o mistério da morte e ressurreição de Cristo, que encontra seu ponto de convergência na cruz.

A Festa da Exaltação da Santa Cruz é um exemplo particularmente claro de como a liturgia torna presente a realidade salvífica. Nesta celebração, a Igreja nos convida a meditar e adorar o instrumento da nossa salvação, a cruz, e a reconhecer sua importância não apenas como um símbolo histórico, mas como um elemento central da fé cristã.

2. Origem Histórica e Desenvolvimento da Festa

A Festa da Exaltação da Santa Cruz tem suas raízes em dois eventos históricos. O primeiro evento é a descoberta da cruz de Cristo em Jerusalém por Santa Helena, por volta do ano 326, durante uma expedição arqueológica que resultou na construção da Basílica do Santo Sepulcro. O segundo é a dedicação desta basílica, em 14 de setembro de 335. Desde então, essa data foi comemorada pela Igreja, e a cruz foi exaltada como o símbolo da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.

Mais tarde, a festa foi ampliada para incluir a lembrança da reconquista da verdadeira cruz pelos cristãos do imperador persa Cosroes II, em 628, após tê-la perdido em uma batalha. Este evento histórico reforçou ainda mais o simbolismo da cruz como sinal de vitória e de libertação.

Com o passar dos séculos, a festa se tornou um importante marco no calendário litúrgico da Igreja Ocidental e Oriental, sendo celebrada como uma solene exaltação do mistério da cruz de Cristo, e não apenas como uma recordação histórica. A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, ao revisar o calendário litúrgico, preservou a festa da Exaltação da Santa Cruz, reconhecendo seu valor teológico e espiritual na vida da Igreja (Calendário Romano Geral, 1969).

3. A Teologia da Cruz: Redenção e Vitória

O mistério da cruz é o centro do cristianismo. Ao ser erguida, a cruz tornou-se o lugar do sacrifício perfeito de Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1,29). No entanto, a cruz não pode ser entendida isoladamente da ressurreição. Como afirma São Paulo, "se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã também é a vossa fé" (1Cor 15,14). A cruz é o meio pelo qual Cristo alcança a vitória sobre o pecado e a morte, e é na ressurreição que essa vitória é plenamente revelada.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que "a morte de Cristo é ao mesmo tempo o sacrifício pascal que realiza a redenção definitiva dos homens, pelo Cordeiro que tira o pecado do mundo, e o sacrifício da Nova Aliança que reconduz o homem a comunhão com Deus" (CIC 613). A cruz, portanto, é sinal da reconciliação e do amor supremo de Deus pela humanidade, que, "amando os seus até o fim" (Jo 13,1), entrega seu Filho para nossa salvação.

Na Festa da Exaltação da Santa Cruz, a Igreja celebra a glorificação de Cristo na cruz, ecoando as palavras do próprio Jesus: "E quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim" (Jo 12,32). A cruz, que era instrumento de tortura e morte, tornou-se símbolo de vida, salvação e esperança. Este paradoxo, que constitui o núcleo da teologia da cruz, é celebrado liturgicamente de maneira especial nesta festa.

A liturgia da Palavra da Exaltação da Santa Cruz reflete claramente essa teologia. A primeira leitura, retirada de Números 21,4-9, conta a história da serpente de bronze erguida por Moisés no deserto, que curava aqueles que a olhavam. Jesus faz referência a este episódio em João 3,13-17, quando explica a Nicodemos que, assim como a serpente foi erguida no deserto, "o Filho do Homem será levantado, para que todo o que nele crer tenha a vida eterna" (Jo 3,14-15). A elevação de Cristo na cruz é, portanto, um ato salvífico universal.

Além disso, a Segunda Leitura da festa, retirada de Filipenses 2,6-11, reforça a dimensão da vitória e exaltação de Cristo. O hino cristológico de Filipenses destaca a humildade de Cristo, que se esvaziou, tomando a condição de servo e tornando-se obediente até a morte de cruz. Mas, por essa mesma obediência, Deus o exaltou, "para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre" (Fl 2,10). A cruz, assim, é inseparável da glória de Cristo.

4. A Dimensão Litúrgica e Pastoral da Festa da Exaltação da Santa Cruz

4.1 A Cruz na Liturgia Eucarística

A cruz está presente em toda celebração litúrgica, particularmente na Eucaristia, que é o sacrifício de Cristo renovado de maneira sacramental. A Santa Missa é a atualização do mistério pascal, onde a Igreja faz memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor. A cada Missa, a cruz se torna novamente o centro da ação salvífica de Cristo.

Durante a celebração da Eucaristia, a cruz é visualmente representada no altar, mas sua realidade espiritual é plenamente vivida no rito eucarístico. O altar, onde o sacrifício é oferecido, representa tanto a mesa do banquete quanto o Calvário, onde Cristo foi crucificado. São João Paulo II afirma: “O altar é o centro da ação de graças que é a Eucaristia. Nele, a cruz de Cristo se manifesta em toda a sua força redentora” (Ecclesia de Eucharistia, 23).

A Festa da Exaltação da Santa Cruz destaca a dimensão sacrificial da Eucaristia. O sacerdote, ao erguer o cálice e a patena durante a consagração, relembra a elevação de Cristo na cruz, como a expressão máxima do amor divino. Esta elevação é um chamado para que todos olhem para Cristo, reconheçam seu sacrifício e participem de sua vida nova.

4.2 A Cruz como Símbolo Pastoral

Pastoralmente, a cruz é um símbolo que fala diretamente à experiência humana. Todos carregam suas cruzes, que podem ser físicas, emocionais, espirituais ou sociais. A cruz de Cristo, exaltada na festa, é um lembrete de que o sofrimento humano tem um sentido e uma finalidade em Cristo. Como o Papa Francisco afirmou: "A cruz não é um objeto de devoção, mas um sinal da vitória do amor sobre o mal" (Angelus, 14 de setembro de 2014).

Portanto, na vida pastoral da Igreja, a cruz deve ser apresentada não como um fardo a ser evitado, mas como um caminho de santificação e redenção. Cristo nos convida a "tomar a nossa cruz" e segui-lo (Mt 16,24), ou seja, a carregar com paciência e esperança os desafios da vida, confiando na vitória final do amor.

A Festa da Exaltação da Santa Cruz é um momento privilegiado para a pastoral litúrgica sublinhar essa verdade aos fiéis. As celebrações desta festa podem incluir momentos de veneração da cruz, homilias que enfatizem o valor redentor do sofrimento e reflexões sobre como a cruz nos acompanha em nossa caminhada espiritual. Assim, a cruz se torna um símbolo de esperança e renovação, ao invés de desespero e resignação.

Conclusão

A Festa da Exaltação da Santa Cruz é uma celebração profundamente enraizada na tradição litúrgica e teológica da Igreja. Ela nos convida a olhar para a cruz com um novo olhar, reconhecendo nela o símbolo máximo da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Na liturgia, a cruz é exaltada como o ponto culminante da obra redentora de Deus, e através da celebração litúrgica, os fiéis são chamados a entrar em comunhão com este mistério.

Como vimos, a cruz na liturgia não é apenas um objeto de veneração, mas o centro de toda a vida sacramental da Igreja. Cada Missa, cada sacramento, e cada ato litúrgico nos remete à cruz de Cristo, onde encontramos a fonte de nossa fé e a garantia de nossa salvação. A Festa da Exaltação da Santa Cruz nos desafia a redescobrir o verdadeiro significado da cruz em nossas vidas, tanto pessoal quanto comunitária, e a vivê-la como um sinal de esperança e vitória.


Referências Bibliográficas

  • Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 1993.
  • CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Instrução Geral sobre o Missal Romano. Edições CNBB, 1975.
  • Concílio Vaticano II. Sacrosanctum Concilium. Constituição sobre a Sagrada Liturgia, 1963.
  • JOÃO PAULO II. Ecclesia de Eucharistia. Carta Encíclica sobre a Eucaristia na sua Relação com a Igreja, 2003.
  • Ratzinger, Joseph. O Espírito da Liturgia. São Paulo: Paulus, 2007.
  • GASSER, Wilhelm. Teologia da Liturgia: Reflexão Teológica sobre a Missa e a Celebração Eucarística. São Paulo: Paulinas, 1999.
  • Papa Francisco. Angelus, 14 de setembro de 2014.

A Espiritualidade Litúrgica

 A Espiritualidade Litúrgica 

A espiritualidade litúrgica, especialmente após o Concílio Vaticano II, assumiu um novo significado e se tornou um dos aspectos centrais da renovação da Igreja Católica no século XX. Este movimento não apenas redefiniu a forma como a Igreja celebra seus ritos, mas também trouxe uma nova compreensão sobre como os fiéis devem se relacionar com a liturgia como uma expressão de sua fé. O Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, produziu a constituição Sacrosanctum Concilium, um documento fundamental para a espiritualidade litúrgica moderna. Neste texto, exploraremos as principais mudanças litúrgicas introduzidas pelo concílio e como elas moldaram a espiritualidade dos católicos desde então.

1. A Renovação Litúrgica e a Sacrosanctum Concilium

A constituição Sacrosanctum Concilium, promulgada em 1963, foi o primeiro documento conciliar a ser aprovado e teve como principal objetivo a reforma da liturgia da Igreja Católica. Esta reforma foi motivada pela necessidade de aproximar a liturgia da vida cotidiana dos fiéis, de modo que eles pudessem participar mais plenamente e conscientemente dos ritos.

Um dos princípios fundamentais da Sacrosanctum Concilium foi o conceito de "participação ativa". Antes do concílio, a missa era celebrada predominantemente em latim, o que muitas vezes resultava em uma participação passiva dos fiéis. O concílio sublinhou que a liturgia é uma ação de toda a Igreja, incluindo o clero e os leigos. A reforma litúrgica procurou, portanto, envolver mais diretamente os fiéis, promovendo uma participação ativa, consciente e frutuosa nas celebrações litúrgicas. A oração e os cânticos passaram a ser realizados na língua vernácula (a língua local), permitindo uma maior compreensão e, portanto, uma espiritualidade mais profunda e integrada.

A partir desse ponto, a espiritualidade litúrgica passou a ser entendida não apenas como a repetição de ritos sagrados, mas como uma expressão viva da fé e da relação pessoal e comunitária com Deus. A Sacrosanctum Concilium enfatizou que "a liturgia é o cume para o qual se dirige a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força" (SC 10). Isso colocou a liturgia no centro da vida espiritual do cristão, como o lugar onde Deus se encontra com seu povo de maneira concreta e eficaz.

2. A Natureza Sacramental da Liturgia

Um dos temas principais que emergiu do Concílio Vaticano II foi a compreensão mais profunda da natureza sacramental da liturgia. A liturgia não é apenas uma série de rituais simbólicos, mas sim um verdadeiro encontro com o mistério de Cristo. Ela é o lugar onde os sinais sacramentais tornam presente o mistério pascal — a morte e ressurreição de Cristo. Por meio da liturgia, especialmente da Eucaristia, os fiéis participam do mistério de Cristo de forma real e direta.

Essa compreensão sacramental tem profundas implicações para a espiritualidade litúrgica. Através da liturgia, os fiéis não apenas lembram os eventos da salvação, mas entram em contato com eles. O Concílio Vaticano II reforçou que os sacramentos são sinais eficazes da graça e que, portanto, a liturgia é o meio pelo qual a vida divina é comunicada à Igreja. Isso coloca a liturgia no coração da espiritualidade cristã, pois é através dela que a comunhão com Deus e com os outros é realizada.

3. A Centralidade da Eucaristia

A espiritualidade litúrgica pós-Vaticano II coloca a Eucaristia no centro da vida cristã. O concílio reafirmou a doutrina de que a Eucaristia é o "fonte e cume de toda a vida cristã" (Lumen Gentium, 11). A missa não é apenas uma lembrança simbólica da Última Ceia, mas é o sacrifício de Cristo tornado presente no aqui e agora. A participação na Eucaristia é, portanto, o momento mais alto da espiritualidade cristã, onde os fiéis são nutridos pelo próprio corpo e sangue de Cristo.

A espiritualidade eucarística é essencialmente comunitária, refletindo a natureza da Igreja como Corpo de Cristo. Através da comunhão, os fiéis são unidos uns aos outros e a Cristo, formando uma única comunidade de fé e amor. O Concílio Vaticano II enfatizou essa dimensão comunitária da Eucaristia, contrastando com a espiritualidade pré-conciliar que, em muitos contextos, colocava mais ênfase na devoção individual.

Além disso, o concílio encorajou a recepção frequente da Eucaristia como uma forma de fortalecer a vida espiritual e a comunhão com Cristo. A espiritualidade litúrgica, portanto, torna-se eucarística em seu núcleo, visto que a missa é a expressão máxima da comunhão com Deus e com os outros.

4. A Participação Ativa dos Fiéis

Um dos aspectos mais notáveis da reforma litúrgica foi a ênfase na participação ativa dos leigos. O Vaticano II trouxe uma visão renovada do papel dos leigos na Igreja, reconhecendo que todos os batizados têm uma responsabilidade na vida e missão da Igreja. Isso foi refletido na liturgia, onde os leigos foram chamados a participar mais plenamente, não apenas assistindo passivamente às celebrações, mas envolvendo-se diretamente nas leituras, nas orações, nos cânticos e até mesmo em certos ministérios litúrgicos, como os ministérios da palavra e da Eucaristia.

Essa mudança teve um impacto profundo na espiritualidade litúrgica. A participação ativa na liturgia ajuda os fiéis a viverem sua fé de forma mais consciente e plena. Em vez de serem meros espectadores, os leigos são agora co-celebrantes, contribuindo para a vivência do mistério de Cristo na comunidade. Essa participação ativa reforça a noção de que a liturgia é a "obra do povo" e não apenas do clero.

5. O Ciclo Litúrgico e o Ano Litúrgico

O Concílio Vaticano II também deu nova ênfase ao ciclo litúrgico, promovendo uma maior conscientização sobre as diversas estações do ano litúrgico e seus significados espirituais. O ciclo litúrgico, com suas festas, tempos de penitência e celebrações, oferece aos fiéis um caminho espiritual ao longo do ano, refletindo os mistérios da vida de Cristo, da encarnação à ressurreição.

A espiritualidade litúrgica pós-Vaticano II incentiva os católicos a viverem o ano litúrgico como um caminho de crescimento espiritual. O advento, a quaresma, o tempo pascal e as festas dos santos oferecem oportunidades para uma renovação constante da vida espiritual. Através da participação nas celebrações litúrgicas dessas estações, os fiéis são convidados a meditar sobre os mistérios centrais da fé cristã e a integrá-los em suas vidas diárias.

6. A Liturgia das Horas

A Sacrosanctum Concilium também renovou a Liturgia das Horas, que é a oração oficial da Igreja ao longo do dia. A Liturgia das Horas, ou Ofício Divino, é composta de salmos, leituras bíblicas e orações, e é rezada em momentos específicos do dia. Essa prática tem suas raízes na tradição monástica, mas o Vaticano II encorajou que fosse adotada por todos os fiéis, e não apenas pelo clero e pelos religiosos.

A espiritualidade litúrgica inclui, assim, a oração constante ao longo do dia, santificando o tempo e unindo os fiéis em oração com a Igreja universal. A Liturgia das Horas proporciona um ritmo espiritual para o dia, lembrando os fiéis de sua dependência de Deus e de sua chamada à santidade em todas as áreas de suas vidas.

7. A Inculturação da Liturgia

Outro aspecto importante da espiritualidade litúrgica pós-Vaticano II é a inculturação. O concílio reconheceu que a liturgia não deve ser algo estático e uniformemente aplicado em todas as culturas, mas que pode ser adaptada de acordo com as particularidades culturais, desde que a essência dos ritos sagrados seja mantida. Isso permitiu que as diversas igrejas locais expressassem sua espiritualidade de maneiras culturalmente apropriadas, enriquecendo a Igreja universal.

Essa abertura à inculturação reflete uma espiritualidade litúrgica mais inclusiva e dinâmica, que valoriza a diversidade dentro da unidade da fé católica. Através da inculturação, a liturgia se torna uma verdadeira expressão da fé de cada comunidade local, refletindo suas culturas e tradições enquanto permanece fiel ao mistério central de Cristo.

8. Conclusão: O Legado Espiritual do Concílio Vaticano II

A espiritualidade litúrgica transformada pelo Concílio Vaticano II é profundamente marcada pela participação ativa, pela centralidade da Eucaristia e pelo entendimento renovado da liturgia como o encontro com o mistério de Cristo. A liturgia, desde o concílio, não é apenas um conjunto de ritos, mas a expressão viva da fé da Igreja e da sua missão no mundo.

Ao promover uma maior participação dos leigos, encorajar a recepção frequente da Eucaristia e adaptar a liturgia às culturas locais, o Vaticano II abriu caminho para uma espiritualidade litúrgica maisO Concílio Vaticano II foi um evento transformador para a Igreja Católica, trazendo uma renovação em várias áreas, incluindo a espiritualidade litúrgica. A partir da constituição Sacrosanctum Concilium, a liturgia passou a ser entendida não apenas como um conjunto de ritos, mas como o coração da espiritualidade cristã. Essa nova abordagem teve profundas implicações na forma como a fé é vivida e expressa pelos fiéis.

A Liturgia nas Novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil

A Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil publicou este ano as novas Diretrizes Gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil. Estas são fruto do encontro da caminhada da Igreja no Brasil e nossa realidade com o Documento de Aparecida e o Magistério do Papa Francisco, suas pregações palavras e documentos.

Foi feita uma reestruturação geral das Diretrizes dando uma enfase a dois eixos condutores do planejamento da evangelização no brasil: a vida em comunidade e a vivência missionária. A comunidade foi apresentada com a metáfora da casa lugar de chegada, acolhida, convivência fraterna e lugar onde se vive a missão e se parte para a vivência missionária.

A Igreja é convidada a se organizar em comunidades que tenham o compromisso de viver como Casa da Palavra, do Pão, da Caridade e da Ação Missionária.  Estes quatro pilares sustentam a cassa. 

Estas comunidades-casas serão espaços de encontro, de ternura e de solidariedade; serão lugar da família e têm suas portas abertas. Este será um sinal profético num mundo de individualismo, de comunicações virtualizadas, de violência... Não é lugar de teorizações ou de reuniões para organizar e manter estruturas, mas,  lugar de aprofundar relações fraternas.

Viver como comunidade que é uma cassa da acolhida e ternura, sendo missionário, iluminados pela palavra, partindo o pão e praticando a caridade é um grande desafio pelo meio em que os cristãos inseridos, principalmente, por causa da cultura urbana. Esta cultura urbana não está eduzida às cidades mas alcança até os lugares mais distantes,

A resposta da Igreja a esse desafio é fazer com que as comunidades sejam lugar do encontro, da ternura, da vivência familiar, um lugar onde sempre se pode entrar para ser acolhido e sair para testemunhar a vivencia evangélica. Essa casa é um "lar" tanto na perspectiva pessoal quanto comunitária, social e ambiental.

Esse lugar de acolhida e ternura, então é sustentado pela Palavra que consiste na Iniciação à vida Cristã e na Animação Bíblica da vida e da pastoral. Sustentado pelo Pão, no sentido da espiritualidade e da vivência litúrgica. Sustentado pela caridade que é o serviço a vida plena para todas e todos. E sustentada pela ação missionária, pela resposta ao mandato do Senhor de levar seu amor a toda a humanidade.

Nestas novas diretrizes a Liturgia recebeu uma atenção especial, juntamente com a espiritualidade foi reconhecida como um pilar que sustenta a casa-comunidade, o pilar do Pão. O relato das primeiras comunidades é o texto inspirador: "eram perseverantes... na fração do pão e nas orações" At 2,42)

Ao abordar a ação evangelizadora relacionada aos pilares as DGAE usam os dois eixos que mencionamos acima, a comunidade e a missão. Primeiramente, como a Comunidade-Casa é sustentada pelos pilares e depois como estes pilares são vivenciados missionariamente.

Igreja nas casas

A Eucaristia era o lugar e o momento onde os cristãos expressavam sua comunhão celebrando a Ceia Pascal do Senhor.  É a Eucaristia que fortalece os discípulos missionários e faz deles testemunhas do Evangelho do Reino.

Para perseverar no seguimento do Senhor, os Discípulos Missionários sustentam sua comunidade a partir da Palavra de Deus na sua oração. O Espírito de Deus age nos Discípulos missionários para que como Jesus possam também entregar-se ao Pai, tornando-se colaboradores da missão salvífica de Jesus.

A pausa restauradora da Oração, da Eucaristia, da liturgia é o momento de permitir que o Espírito socorra os discípulos missionários de seus interesses próprios e de suas ideologias e modos de ver o mundo. As Diretrizes salientam que o agir não substitui a oração. As reuniões, planejamentos e todas as atividades da igreja devem partir da Liturgia e da Espiritualidade. 

A Liturgia é o lugar para onde vamos com nossas ações e vivências e de onde partimos para a vivência missionária e a vida no mundo. Sem uma espiritualidade litúrgica autêntica corre-se o risco de cair no ativismo, na vaidade, ambição e desejo de poder. E o pior de tudo de se tornar "funcionário do Sagrado".

As diretrizes lembram que "O Senhor deseja uma igreja servidora, samaritana, pobre com os pobres. composta de pessoas disponíveis a sair de si mesmos a ir ao encontro com os outros. Isso só é possível se há uma espiritualidade entranhada nas ações e se existem os momentos de vivencia da liturgia, principalmente no encontro com o Senhor na escuta da Palavra e na Celebração da Eucaristia.

As diretrizes fazem uma admoestação para que a piedade popular seja valorizada na pureza de suas expressões. E que se faça tudo para que não seja instrumentalizada pelo intimismo, consumismo e imediatismo.

A Igreja como comunidade que é casa de ternura e acolhida é também o lugar onde se celebra a misericórdia e perdão que vem do Pai. Formada por imperfeitos, essa casa é lugar da experiência da misericórdia. Formados no amor do Pai os Discípulos missionários tornam-se embaixadores da misericórdia.

Igreja em missão

Se por um lado a comunidade é lugar da acolhida, da partilha do Pão e da Palavra, por outro lado é dela que partem os discípulos missionários para fazer o amor e a misericórdia conhecidos.

A vida cristã não pode existir sem a Palavra e a Eucaristia. E estas são vivenciadas na liturgia. A liturgia é o coração da comunidade. É por meio da liturgia que o Pai expressa sua Palavra aos Discípulos; por meio dela, alimenta-os com a Eucaristia, une, consola, cura e manifesta sua misericórdia.

Celebrar o Dia do Senhor, seja com a Palavra ou com a Eucaristia é o ponto alto da vivência cristã. A família cristã se encontra com o senhor, fortalecendo os laços fraternos e motivando o compromisso missionário. O Domingo é dia da alegria, do repouso, da solidariedade e alteridade.

As diretrizes motivam para que tanto o subjetivismo emotivo e intimismos quanto a frieza da rigidez rubricista e ritualistas sejam evitados. As celebrações devem ser comunitárias. Devem levar à experiência do Mistério Divino e ao agir evangelizador aqui e agora neste momento histórico onde o Reino de Deus precisa mostrar seus sinais.

Encaminhamentos Práticos

Para terminar, as citamos algumas ações e modos de organizar a ação missionária das novas DGAE que ajudam a valorizar dinamizar o pilar do Pão, a Liturgia e a espiritualidade: 
 *  Resgatar o domingo como Dia do Senhor, com celebração da Eucaristia ou da Palavra de Deus, com diáconos ou ministros devidamente preparados para tal; (164-165)
* Incentivar a piedade popular como caminho de aprofundamento da fé; seja iluminada com a Palavra de Deus e as orientações da Igreja; (166)
* Valorizar o canto litúrgico e o espaço sagrado; (167)
* Respeite-se o Ano Litúrgico e evite-se celebrações de interesse individual; (168)
* As homilias sejam qualificadas e liguem a liturgia à existência e à vida comunitária e social; (169)
* As missas nos meios de comunicação estejam em conformidade com as normas litúrgicas e as orientações da CNBB (170)



As DGAE e a Liturgia - Parte I Planejamento

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2015-2019 e a Liturgia

Parte 1 Planejamento e vida litúrgica

Na última Assembléia da CNBB foi aprovada a revisão das DGAE. Alguns capítulos foram reescritos, outros apenas reorganizados, mas, o que fica muito claro é o desejo da Igreja no Brasil de acompanhar o impulso que o Papa Francisco tem dado para a construção de uma Igreja em estado permanente de missão, uma igreja em saída, renovando as estruturas e sendo sinal da presença de Cristo, principalmente, nas periferias existenciais.
Neste contexto de adaptação e aprofundamento do caminho que a Igreja no Brasil já vem trilhando faremos alguns apontamentos no que diz respeito à espiritualidade pastoral e litúrgica a partir das linhas gerais das novas DGAE.
Para começar vamos ao final do texto das DGAE onde encontramos uma chave de leitura e chamada de atenção para o sentido da Ação Evangelizadora. Todos sabemos a necessidade de aprofundar nossas capacidades técnicas em termos de planejar nossas ações, traçar caminhos e estipular metas no que diz respeito à ação evangelizadora. 
Esta é uma problemática que salta aos nossos olhos quando vemos nossos esforços de evangelização não resultarem em um aprofundamento da vida cristã, ou numa maior aproximação das pessoas com Jesus Cristo, e, mesmo numa reaproximação com a comunidade de fé. Freqüentemente, nosso modo de agir peca pela falta de planejamento, de construção de um projeto que tenha metas claras e estipule estratégias simples e factíveis.
Mas, por outro lado, corremos o risco de imaginar nossa ação evangelizadora como algo parecido com a administração de uma empresa ou com a execução de algum projeto de marketing com um viés religioso.
Essa é a grande chamada de atenção no final do texto das DGAE, é preciso lembrar que o planejamento pastoral deve fazer uso de todas as técnicas disponíveis que nos ajudem a avançar na ação de Evangelizar. No entanto, o planejamento pastoral não se limita a um processo técnico. O planejamento pastoral, por lidar com a ação de Evangelizar, é, por isso mesmo, uma ação carregada de sentido espiritual. Como bem sabemos, é o Espírito que governa a Igreja, por isso, é preciso aprender a equilibrar a necessidade de aperfeiçoar a nossa capacidade técnica com a docilidade ao Espírito de Deus.
Buscar este equilíbrio é o que impede que a Igreja não vá aos extremos, tanto do puro ativismo quanto da acomodação. É urgente superar as estruturas arcaicas, como vinha apontando o Documento de Aparecida e como confirma o Papa Francisco convidando-nos a sair da pastoral da manutenção. Segundo as DGAE, para encontrar o equilíbrio, é preciso que todo o processo de planejamento seja rezado, celebrado de transformado em louvor a Deus. 
Em relação à vida e a vivência litúrgica na igreja nada é diferente. É sempre urgente a necessidade de aprofundar, além do conhecimento e da experiência litúrgica é preciso investir no desenvolvimento de capacidades técnicas para saber planejar, traçar caminhos e estipular metas.
Em relação à espiritualidade litúrgica de uma comunidade é importante que se descubra com clareza quais são as maiores necessidades, seja de conhecimento ou de vivência da liturgia. A partir deste diagnóstico a Pastoral Litúrgica deve estipular as metas a serem alcançadas. 
Com metas claras faz-se o planejamento das ações. Estas ações na espiritualidade litúrgica tem há ver tanto com a formação e vivência quanto com o trabalho de preparar executar e vivenciar os ritos, festas e celebrações no decorrer do ano litúrgico.
Este planejamento é direcionado pelo desejo profundo de que as vivências litúrgicas da comunidade levem a um verdadeiro aprofundamento da vida cristã, uma aproximação com a pessoa de Jesus Cristo e uma maior integração na vida da comunidade.
Por estes mesmos motivos o planejamento da vida litúrgica não se reduz a um processo técnico, mas é um percurso carregado de sentido espiritual no qual a comunidade deixa-se conduzir pela força do Espírito Santo a fim de tornar-se cada vez mais uma comunidade de discípulos missionários alimentados pela vivência da liturgia. 
Assim, também, no planejamento litúrgico da vida da comunidade deve-se equilibrar a necessidade de aperfeiçoamento e uso das capacidades técnicas com a docilidade ao Espírito Santo.
Que nossas comunidades possam encontrar equilíbrio na sua espiritualidade litúrgica fugindo tanto do puro ativismo quanto da acomodação.

Liturgia: espiritualidade do cristão

Liturgia: espiritualidade do cristão

“A liturgia é a fonte primeira e indispensável mediante a qual os fiéis podem atingir o genuíno Espírito Cristão.” É o que diz o número 14 da Sacrossanto Concilium. Esta frase é a resposta a uma pergunta que se poderia fazer a qualquer membro da Igreja: qual é a sua espiritualidade?
O modo de se viver segundo o Espírito de Cristo dá-se pela experiência de fé na liturgia, pois, é nela que o cristão ouve a Palavra, relê a própria vida à luz da Palavra, alimenta-se da Eucaristia, exercita a caridade e a partilha e é enviado de volta para a vida e a missão.
O que garante uma espiritualidade litúrgica fiel ao Espírito Cristão? Uma liturgia viva e encarnada, participativa, ativa e consciente, eclesial e comunitária, centrada no Mistério Pascal de Cristo que é o centro do Projeto do Pai.
Uma liturgia viva e encarnada é aquela que está baseada na realidade de quem celebra. Não é um acessório, nem uma fuga, mas a celebração da vida. Uma liturgia morta é aquela baseada apenas numa ritualidade estéril, apenas a repetição quase ‘mágica’ de um rito sem ligação com a vida concreta de quem celebra.
Liturgia viva e encarnada é aquela que é continuação da vida, lugar para onde vai a vida; é aquela de onde parte a vivência cristã. Cume para onde se direciona e fonte de onde jorra a Graça de Deus.
Uma liturgia participativa, ativa e consciente é aquela em que todos se reconhecem como membros ativos em tudo o que acontece. Participar, tomar parte é mais do que observar, assistir. É assumir uma parte do todo que é feito. Ser ativo na liturgia significa tomar iniciativa, assumir o próprio batismo exercendo algum ministério, estando em comunhão com o que acontece na ação litúrgica.
Estar consciente é saber o que está acontecendo, saber-se membro vivo do Corpo de Cristo. Pressupõe deixar a comodidade, a passividade e, principalmente, a indiferença.
Não há espírito Cristão se não existe uma fé essencialmente eclesial e comunitária. A Fé cristã surge exclusivamente da experiência de vida dentro da igreja, comunidade. Nos textos bíblicos o exemplo mais conhecido é de Tomé, que só consegue perceber a presença viva do Cristo Ressuscitado quando ele está reunido com a comunidade.
A Espiritualidade Litúrgica é o oposto da espiritualdiade intimista, subjetivista, imediatista. O espírito Cristão está onde dois ou mais estão reunidos, ou seja, onde há comunidade, Igreja.
Enfim, o centro da vivência espiritual cristã é o Mistério do Cristo que:
·         vive segundo a vontade do Pai, para dar cumprimento a tudo o que ele anunciou pela Palavra revelada,
·         entrega-se como novo cordeiro pascal, que leva sobre si toda e qualquer peso morrendo na cruz;
·         ressuscita, para trazer vida nova a todos aqueles que desejam lavar suas vestes no sangue do cordeiro.
O Mistério de Cristo, sua vida, paixão, morte e ressurreição, é o centro da espiritualidade cristã. É o modelo para a vida e a existência de todos os cristãos.


Na liturgia encontramos a fonte da espiritualidade genuinamente cristã. Celebrar está intimamente ligado à vida humana. Significa olhar para traz e reconhecer tudo o que aconteceu; olhar para frente e conseguir alimento e sustento para continuar a caminhada. Na liturgia viva e encarnada, participativa, ativa e consciente, eclesial e comunitária, vivemos o Mistério de Cristo e confirmamos nosso desejo de que o Reino de Deus cresça cada vez mais na nossa vida.

A Igreja e os Sacramentos



Neste breve artigo vamos apontar algumas características da relação entre a Igreja, Povo convocado por Deus, e os Sacramentos, sinais eficazes da Salvação de Cristo. Para iniciarmos vamos citar o sermão 74,2 de São Leão Magno: “Aquilo que era visível em nosso Salvador passou para seus Mistérios”.
Toda a graça e a força salvadora que se manifestava nas palavras e ações de Jesus, pela autoridade confiada à sua Igreja, se faz presente nos sacramentos. A Igreja torna-se sinal da presença do próprio Cristo, pois, Ele mesmo age pelos sacramentos fazendo com que a Salvação chegue a todos.
O documento Sacrossanto Concilium no número 59 descreve claramente a destinação dos sacramentos:  “destinam-se à santificação dos homens, à edificação do Corpo de Cristo e ainda, ao culto a ser prestado a Deus”.

1)                      Santificação dos homens, por meio dos sacramentos Deus se faz presente na vida humana, iluminando cada etapa, cada situação com sua graça, com a força redentora de Cristo. A santificação acontece pela confirmação da filiação divina de todos os que se aproximam da Igreja de Cristo e recebem os sacramentos. Estes são adotados como Filhos de Deus Pai. Pelos sacramentos, os fiéis são associados à vida-paixão-morte-ressurreição de Jesus, e no seguimento do mestre aperfeiçoam suas vidas na busca da santidade, lavando suas vestes no sangue do Cordeiro. Pelos sacramentos, a graça santificante, pela ação do Espírito Santo, preenche, consagra todo o ser dos fiéis a fim de que sejam santos como o Pai é Santo e se dirijam ao Reino de Deus.
2)                      Edificação do Corpo de Cristo. Pelos sacramentos os fiéis são inseridos no Corpo Místico de Cristo. Ligados a Ele como “os ramos estão ligados à videira” podem receber diretamente sua graça, podem participar da sua ação como Igreja e no mundo. Por meio de palavras, ações e gestos os sacramentos que chegam pela confirmação da fé, alimentam esta mesma fé com a graça de Deus, fortalece o vínculo de união entre os chamados, entre os membros do Corpo de Cristo, e exprimem concretamente a mesma fé. Como membros do corpo de Cristo o povo que celebra os Sacramentos torna-se povo sacerdotal. Unidos a Cristo, único e eterno Sumo Sacerdote aprofundam a consciência de que é o próprio Deus quem toma a iniciativa de constituí-lo em Assembléia da nova e eterna Aliança.
3)                      Culto a ser prestado a Deus. Os sacramentos são a expressão do reconhecimento e do louvor do Povo de Deus que se volta ao Criador inspirado pelo Espírito Santo e agindo no Cristo para render-lhe graças pelas suas ações e pela sua misericórdia. Nos sacramentos a Igreja como Corpo de Cristo descobre-se sacerdotal pois nela age o único Sumo sacerdote e verdadeiro Santuário, Jesus Cristo. Nos sacramentos é o Cristo mesmo que se oferece e é oferecido ao Pai pela humanidade e por toda a criação. Ao mesmo tempo Ele se doa e é dado como sacrifício, sendo ele mesmo o Altar e o Cordeiro.

Por causa desta destinação dos sacramentos, de configurar seu Povo ao Cristo, na santificação, união no Seu Corpo e Culto ao Pai, os sacramentos comunicam a Graça de Deus e ao mesmo tempo exigem comunhão com a Igreja, e responsabilidade para com a construção do Reino de Deus.
Os sacramentos são para a Igreja, fazem com que Ela exista. Santificando, unindo e direcionando ao Pai, os sacramentos fazem da igreja imagem antecipada da Igreja do Céu. O catecismo da Igreja católica diz no número 1144 que a “Assembléia reunida é a primeira realidade visível da Liturgia Cristã”.
Por outro lado os sacramentos são da Igreja, acontecem por meio dela. A Salvação que vem pela Páscoa do Senhor chega a todos pela celebração dos Sacramentos na Igreja. A própria Igreja é o sacramento da ação de Cristo operando em seu seio graças à missão do Espírito Santo. Na celebração da Igreja, “o Sacramento é sinal rememorativo do que já aconteceu, a paixão de Cristo; demonstrativo do que a Paixão realiza e nós e pronunciativo da glória futura” (S Tomas, S Theologica III,60,3). Pelos sacramentos dignamente celebrados é conferida a graça que eles significam. Jesus instituiu a sua Igreja como mediadora da sua ação Salvifica nos sacramentos.

Enfim, os frutos da vida sacramental não são apenas pessoais. Deus não apenas dispensa sua graça sobre cada um mas, o faz pela Igreja, na Igreja e para a Igreja. Como foi dito os Sacramentos não só santificam cada fiel, mas, os incorpora ao Corpo Místico de Cristo e os torna aptos a render o louvor e a ação de graças como parte do povo eleito.
Ao serem saciados pelos sacramentos pascais os fieis são convocados a serem concordes na piedade, a conservar a renovação da Aliança do Senhor com a humanidade e a se empenharem no cuidado para com aqueles que sofrem exercendo copiosamente a Caridade de Cristo. Como presença viva da missão do Ressuscitado em nós, os sacramentos trazem ao hoje da nossa vida e anunciam ao mundo o evangelho: ‘Jesus ressuscitou e esta presente, vivo na Igreja e no Mundo’.

Ser Cristão!

Ser cristão significa receber ter a Sagrada Liturgia como a primeira e necessária fonte da vida cristã. É a liturgia, celebração do Mistério Pascal de  Cristo que alimenta a vida cristã, pela Sagrada Liturgia o cristão recebe a Palavra de Deus, alimenta-se do Corpo e Sangue de Cristo participando da atualização do seu sacrifício.
Não é possível ser Cristão sem participar da vida litúrgica da comunidade cristã. Na liturgia acontece o grande encontro entre Deus e a pessoa humana. Não é sem motivos que a assembléia é chamada de Corpo Místico de Cristo, pois assim como um membro precisa estar unido ao corpo para receber o sangue, oxigênio e alimento para viver, respirar e ter força; também cada cristão deve unir-se ao Corpo Místico de Cristo para receber a vida que nasce do sacrifício do Cordeiro, seu sangue; receber o sopro vivificador do espírito Santo; e o alimento da Eucaristia.
Ser Cristão é ter ouvidos, coração e mente atentos para ouvir e entender o que Deus diz. É na liturgia que Ele mesmo se dirige ao fiel quando se lêem as Sagradas Escrituras, quando, como no caminho de Emaús estas mesmas são explicadas em relação à vida de cada  um. Na liturgia temos a oportunidade de falar diretamente ao coração de Deus, expressando nosso louvor e gratidão, colocando em suas mãos nossas dores, angústias e sofrimentos.
A liturgia é o coração e a alma do discipulado. Pois como diz a Sacrossanto Concilium, “a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde emana toda a sua força.” A liturgia fornece a ‘pausa restauradora’ na caminhada rumo ao Reino Definitivo. E ao mesmo tempo é a fonte para o fortalecimento da ação missionária da Igreja.
Os sacramentos são a expressão maior da Liturgia, pois eles são a celebração do Mistério Pascal de Cristo. A graça e a presença de Deus que eram visíveis no Cristo, após a sua paixão morte e ressurreição tornou-se visível nos sacramentos. É nesse sentido que podemos dizer que celebramos os sacramentos, que vivemos e experimentamos o Mistério. Não é apenas algo que se recebe ou que é administrado, mas algo que toma e toca todo o nosso ser.
No batismo a filiação divina se confirma, pois, pela entrega de Jesus Deus adotou e redimiu toda a humanidade. Jesus, Filho amado de Deus, apresenta ao Pai todos aqueles que recebeu e que não deixou que se perdessem. No Sacramento do Batismo se faz memória do Mistério Pascal, pois, como o Cristo passa pela morte e tem vida nova, o cristão passando pelas águas batismais renasce para uma vida nova em Cristo, iluminado pela sua Luz, ungido com os dons do Santo Espírito, adotado como filho amado pelo Pai.
A porta de entrada para a Nova Aliança é o sacramento do batismo. Por ele nos tornamos cristãos. Renascidos pela água e pelo Espírito passamos a compor o Corpo Místico de Cristo. Como Cristo, morremos para o mundo e inseridos no seu Corpo, nos tornamos Luz do mundo e Sal da terra.
Na unção do Crisma, nosso corpo é confirmado como Templo do Espírito Santo. Assinalados com a santa unção ficamos marcados para sempre como aqueles que buscam encontrar-se com Deus, viver e manifestar sua presença no nosso meio. Ao revestir-nos do Cristo a sagrada unção nos torna aptos a testemunharmos seu amor, buscando fazer as mesmas coisas que ele fez.
A Eucaristia é o alimento nesta vida na caminhada para a vida eterna do Cristão. É o sacramento primordial, pois, nele o Mistério do Cordeiro é de tal forma celebrado que ele se torna alimento real, verdadeiro para esta vida e a vida eterna.
O centro da vida cristã é a celebração do Sacramento da Eucaristia. Pois nele se faz memória do Sacrifício de Cristo. Este torna-se atual, presente em nossa vida. Não é possível viver como cristão sem se alimentar do Corpo e Sangue de Cristo, sem participar deste mistério.
Além disso, a Eucaristia é que faz a Igreja. É o sacramento da unidade. Neste sacramento nos assentamos com Cristo para que juntos, na mesma mesa possamos contar nossas alegrias, e sofrimentos e mais ainda, nos alimentar para a caminhada cotidiana.
A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. É com alegria que ela experimenta, de diversas maneiras, a realização incessante desta promessa: « Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt 28, 20); mas, na sagrada Eucaristia, pela conversão do pão e do vinho no corpo e no sangue do Senhor, goza desta presença com uma intensidade sem par. (Ecclesia de Eucharistia1)
“Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja.” (Sacrossanto Concilium 10)

Vamos encerrar com a oração de São Tomás, citada pelo Papa João Paulo II na encíclica Ecclesia de Eucharistia:

« Bom Pastor, pão da verdade,
Tende de nós piedade,
Conservai-nos na unidade,
Extingui nossa orfandade
E conduzi-nos ao Pai.

Aos mortais dando comida
Dais também o pão da vida:
Que a família assim nutrida
Seja um dia reunida

Aos convivas lá do Céu ».

Onde celebramos?

Mais uma vez vamos nos encontrar para conversar brevemente sobre a Sagrada Liturgia. Vamos falar de onde se celebra, e indicar algumas características mais visíveis da igreja enquanto templo, lugar do culto cristão.

Antes de iniciarmos rezemos: Ó Deus, que edificais o vosso templo eterno com pedras vivas e escolhidas, infundi na vossa Igreja o Espírito que lhe destes, para que o vosso povo cresça sempre mais construindo a Jerusalém celeste. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

A igreja-templo é o lugar próprio da celebração da Sagrada Liturgia. Tem diversas características:, é ‘sinal da presença de Deus e da Igreja no mundo’; ‘lugar da acolhida e do diálogo sincero’; lugar do encontro entre Deus e Seu povo, e das pessoas entre si’; ‘lugar da festa e alegria, onde celebra-se o Mistério Pascal de Cristo’.

A igreja é sinal da presença de Deus. Representa concretamente a morada de Deus no meio do seu povo. Deus que quis mostrar-se próximo pela vida de Jesus, permanece junto do seu povo. Jesus consola sua Igreja dizendo “eis que estarei com vocês todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

A presença da igreja-templo é um modo de que o Povo de Deus dispõe para glorificar a Deus, é expressão do reconhecimento dessa presença que eleva e santifica o homem. No número 7 da Sacrossanto Concilium lemos:  “Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. (...) Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.” Assim, a igreja-templo tem seu papel no cumprimento das funções da Sagrada Liturgia de glorificar a Deus e Santificar as pessoas.

Este sinal da presença de Deus não atinge apenas os fiéis. Chega a todas as pessoas que vivem ou que passam pela região onde está a igreja. O próprio Jesus dizia: “Vocês são a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte.  Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, e sim para colocá-la no candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa.  Assim também: que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem, e louvem o Pai de vocês que está no céu.” (Mt 5, 14-16)

A presença da igreja-templo é um modo de fazer a Luz de Deus chegar a todas as pessoas, mesmo àquelas que não se dispuseram a responder o chamado do Senhor. É também um forte testemunho, lembrança de que Deus deseja que haja justiça no meio do seu povo. Pela Sagrada Liturgia realizada na igreja, Cristo age como sacerdote, elevando a humanidade a Deus e dispensando os dons de Deus para o seu povo através do seu corpo Místico. A igreja é o lugar onde o Corpo Místico de Cristo se faz visível onde o presidente da celebração age como o Cristo Cabeça e a assembléia como seu Corpo.

Como lugar onde a ação do Corpo Místico de Cristo se mostra visível, a igreja é lugar da acolhida e do diálogo sincero. Como casa de Deus é também casa de seus filhos adotivos. Ir à igreja torna-se então como voltar à casa do Pai, voltar ao seu abraço acolhedor. Neste lugar acontece o encontro dos filhos com o Pai e dos filhos entre si. As duas dimensões da liturgia se realizam na igreja, a vertical, o ser humano busca a Deus e o encontra, sente-se acolhido, sente-se em casa; e Deus que chama, recebe aqueles que ele escolheu e concede-lhes Sua Graça e Sua Benção. A dimensão horizontal da liturgia realiza-se no encontro fraterno entre os irmãos, entre os membros do corpo de Cristo.

Por isso a igreja, torna-se lugar da realização da comunhão. Comunhão de Deus com seu povo e comunhão do povo entre si como Igreja Militante, que caminha rumo ao Reino do  Senhor. Na igreja, este povo que busca apoiar-se mutuamente para continuar caminhando, é animado pela Palavra de Deus, alimentado pela Sagrada Eucaristia, ungido com o óleo da proteção e santificação, volta ao caminho e é perdoado de seus pecados. Alimentado, fortalecido o Povo de Deus pode voltar à caminhada do dia-a-dia manifestando a presença do Senhor.

A igreja templo é lugar da festa e da alegria. É lugar da celebração do Mistério Pascal que é atualizado em cada celebração. É o próprio Cristo que rompe as barreiras da morte, faz desaparecer as trevas do mal e da injustiça. Essa é a grade alegria e a grande festa, o Mistério Pascal torna-se presente no nosso tempo, na nossa vida. A igreja-templo é o lugar da ‘pausa restauradora na caminhada rumo ao céu’, pausa na qual a vida-paixão-morte-ressurreição de Jesus promove a união com Deus e com os irmãos. Ao festejar a maravilha da redenção, o que celebramos torna-se pauta para o que vamos viver. A festa da ressurreição ilumina o caminho e nos faz caminhar juntos construindo o Reino já aqui, em direção ao Reino definitivo.

Como novo Povo de Deus nossa vida de fé também se faz como uma caminhada. Caminhamos ao encontro do Senhor.  Assim, ir à igreja-templo é símbolo da caminhada que fazemos no nosso dia-a-dia, “também sou teu Povo, Senhor, estou nesta estrada, cada dia mais perto, da terra esperada”.

Ir à igreja, caminhar até ela, torna-se, também uma experiência de fé, é uma forma de expressar nossa busca pela presença de Deus. Canta o salmista: “Que alegria quando ouvi que me disseram  vamos à casa do Senhor. E agora nossos pés já se detêm,  Jerusalém, em tuas portas. (Salmo 122, 1-2)”. Como é bom avistar de longe as portas abertas, chegar à igreja, sentir-se acolhido por Deus e pelos irmãos.

As portas abertas representam o sinal de que este é um Lugar onde não há restrição para a entrada. Lugar onde todos podem entrar e se colocar na presença de Deus. Quando peregrino em um lugar desconhecido não há nada melhor do que encontrar as portas abertas de uma igreja, sentar por ali, conversar com Deus, refazer-se do cansaço, observar as paredes, pinturas, imagens, presbitério, ver como as pessoas entram, caminham, sentem-se em casa.

Para terminar convido você a recitar o Salmo 83(84):
 (se quiser ouvir clique aqui)

–2 Quão amável, ó Senhor, é vossa casa, *
† quanto a amo, Senhor Deus do universo!
–3 Minha alma desfalece de saudades *
e anseia pelos átrios do Senhor!
– Meu coração e minha carne rejubilam *
e exultam de alegria no Deus vivo!

=4 Mesmo o pardal encontra abrigo em vossa casa, †
e a andorinha ali prepara o seu ninho, *
para nele seus filhotes colocar:
– vossos altares, ó Senhor Deus do universo! *
vossos altares, ó meu Rei e meu Senhor!

–5 Felizes os que habitam vossa casa; *
para sempre haverão de vos louvar!
–6 Felizes os que em vós têm sua força, *
e se decidem a partir quais peregrinos!

=7 Quando passam pelo vale da aridez, †
o transformam numa fonte borbulhante, *
pois a chuva o vestirá com suas bênçãos.
–8 Caminharão com um ardor sempre crescente *
e hão de ver o Deus dos deuses em Sião.

–9 Deus do universo, escutai minha oração! *
Inclinai, Deus de Jacó, o vosso ouvido!
–10 Olhai, ó Deus, que sois a nossa proteção, *
vede a face do eleito, vosso Ungido!

–11 Na verdade, um só dia em vosso templo *
vale mais do que milhares fora dele!
– Prefiro estar no limiar de vossa casa, *
a hospedar-me na mansão dos pecadores!
–12 O Senhor Deus é como um sol, é um escudo, *
e largamente distribui a graça e a glória.
– O Senhor nunca recusa bem algum *
àqueles que caminham na justiça.
–13 Ó Senhor, Deus poderoso do universo, *
feliz quem põe em vós sua esperança!

 – Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *

Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Que povo é esse?

Que povo é esse?

Vamos iniciar rezando: “Inspirai, Senhor, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em vós comece e termine tudo aquilo que fizermos. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.”

No último artigo falamos do termo Liturgia que vem de duas palavras que significam aproximadamente ‘povo’ e ‘ação’. Dissemos que quem age na liturgia é, em primeiro lugar o Deus Trindade. Em resposta a essa ação a assembléia presta um culto de louvor e adoração a Deus.

Neste artigo vamos falar brevemente do ‘povo’. Mas que povo é esse? Como diz a carta de São Pedro; este é o Povo “escolhido de acordo com a presciência de Deus Pai e através da santificação do Espírito, para obedecerem a Jesus Cristo e serem purificados pelo seu sangue.” (1Pd 1, 2)

Deus escolheu um povo para ser herdeiro de sua aliança. Com Jesus a aliança estendeu-se até os confins da terra e foi oferecida a todas as pessoas. Na história do Povo de Israel a Igreja de Cristo já estava sendo preparada, e tudo se encaminha para a Nova e Eterna Aliança feita com a oferta da vida de Cristo, Cordeiro Imolado pela vida de muitos.

Este povo escolhido é convocado, é chamado para seguir Jesus, para encontrar a Salvação oferecida pelo Pai. Assim nos diz o catecismo da Igreja Católica no número 1097: “ Na liturgia da Nova Aliança, toda ação litúrgica, especialmente a celebração da Eucaristia e dos Sacramentos é um encontro entre Cristo e a Igreja”. É o Senhor que vem ao encontro daqueles que Ele mesmo escolheu, daqueles que buscam lavar e alvejar suas vestes no sangue do Cordeiro.

Este povo torna-se uma Assembléia Litúrgica, uma Igreja Viva ao manifestar sua fé, ao reconhecer o Mistério Pascal de Cristo, os desígnios do Pai na História da Salvação e a força Santificadora do Espírito. Este povo torna-se Assembléia Litúrgica, sendo um Povo Sacerdotal que, convocado pela Palavra, que é o próprio Cristo, se reúne para celebrar o Mistério Pascal.

Outra marca deste povo é sua comunhão. São aqueles que buscam ser assíduos na comunhão fraterna. Esta comunhão nasce do Mistério da comunhão da Trindade Santa. Esta comunhão é expressa simbolicamente como a comunhão do Corpo de Cristo, em que cada membro, parte do corpo, coopera para o bem do todo. Cristo é a cabeça, sinalizada na Assembléia litúrgica por quem preside. É de Cristo que todo o corpo sacerdotal, a Assembléia Litúrgica, recebe toda dignidade e Ofício.

Para terminar, vamos citar novamente a primeira carta de Pedro, confirmando que este povo é o Povo Eleito, escolhido e chamado por Deus e que quis responder sim ao chamado. Um povo que fez opção de fé de configurar-se a Cristo.

“Aproximem-se do Senhor, a pedra viva rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. Do mesmo modo, vocês também, como pedras vivas, vão entrando na construção do templo espiritual, e formando um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais que Deus aceita por meio de Jesus Cristo. Vocês, porém, são raça eleita, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido por Deus, para proclamar as obras maravilhosas daquele que chamou vocês das trevas para a sua luz maravilhosa. Vocês que antes não eram povo, agora são povo de Deus; vocês que não tinham alcançado misericórdia, mas agora alcançaram misericórdia.” (1Pd 2, 4-5;9-10”
Rezemos para terminar: “A vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus, não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, ó Virgem gloriosa e bendita.”  E cantemos:

Povo De Deus Foi Assim

Autor: L.: J. Thomaz Filho / M.: Frei Fabretti

1. Povo de Deus, foi assim: Deus cumpriu a palavra que diz: "Uma virgem irá conceber", e a visita de Deus me fez mãe! * Mãe do Senhor, nossa mãe, nós queremos contigo aprender * A humildade, a confiança total, e escutar o teu Filho que diz:

Senta comigo à minha mesa, * nutre a esperança, reúne os irmãos! * Planta meu reino, transforma a terra, * mais que coragem, tens minha mão!

2. Povo de Deus foi assim: nem montanha ou distância qualquer * Me impediu de servir e sorrir. Visitei com meu Deus. Fui irmã! * Mãe do Senhor, nossa mãe, nós queremos contigo aprender * Desapego, bondade, teu sim, e acolher o teu Filho que diz:

3. Povo de Deus, foi assim: meu menino cresceu e  entendeu, * Que a vontade do Pai conta mais, e a  visita foi Deus quem nos fez. * Mãe do Senhor, nosso mãe, nós queremos contigo aprender * A justiça, a  vontade do Pai, e entender o teu Filho que diz:


4. Povo de Deus, foi assim: da verdade jamais se  afastou. * Veio a morte e ficou nosso pão. Visitou-nos  e espera por nós! * Mãe do Senhor, nossa mãe, nós queremos contigo aprender * A verdade, a firmeza, o perdão, e seguir o teu Filho que diz: